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Como bons velhos amigos

“Quando vamos até o fundo do mar, descobrimos que ali jamais poderíamos viver sozinhos. Então levamos mais alguém. E esta pessoa, chamada de dupla, companheiro ou simplesmente amigo, passa a ser importante para nós. Porque, além de poder salvar nossa vida, passa a compartilhar tudo que vimos e sentimos. E em duplas, passamos a ter equipes, e estas passam a ser cada vez maiores e mais unidas. E assim entendemos que somos todos velhos amigos mesmo que não nos conheçamos. E esse elo que nos une é maior que todos os outros que já encontramos. E isso faz com que nós mais do que amigos, sejamos irmãos. Faz de nós, mergulhadores.” – Jacques Yves Cousteau.

Ao pesquisar sobre a importância das amizades para um desenvolvimento saudável não encontrei bons textos científicos sobre o assunto. É uma pena saber que boa parte da Psicologia abandonou as investigações sobre o tema.  Em tempos que os relacionamentos de amizade tem sofrido uma crise devido a uma sociedade muito competitiva e cheia de rivalidades, tensões, invejas… Compartilhar a vida de forma genuína se tornou um grande desafio em um período de hipervalorização da individualidade e de enfraquecimento dos laços afetivos. Ao estudar o sentimento de autoestima saudável descobre que está diretamente relacionado com o convívio interpessoal afetivo. Desde a infância a autoestima pode ser alterada dependendo de como for construída as relações de afeto ao decorrer da vida. Por isso as amizades têm uma importância inestimável neste sentimento. Observa-se que pessoas que tem bons vínculos de amizade tendem a ter uma autoestima mais saudável, um senso de eu mais adaptado para o convívio social, acadêmico e profissional. Amigos, além disso, propiciam bem-estar, asseguram saúde psíquica e prolongam a vida.

Infelizmente, as pessoas enxergam o sentimento de amizade como algo menor. É muito comum uma pessoa namorar ou casar e deixar os amigos de lado e não perceber o risco de estar em um relacionamento dependente exclusivamente do parceiro amoroso. Acredito muito no antigo provérbio: “É melhor não colocar todos os ovos em uma única cesta.” Neste caso, não se pode restringir demais os contatos sociais. Pesquisas revelam que é melhor diversificar os investimentos afetivos para que a perda de uma pessoa estimada ainda deixe outras possibilidades de troca de afeto, caso contrário, fica-se mais ciumento, mais inseguro, mais controlador… Em outras palavras, pessoas que pertencem aos mais diversos grupos ou tem uma rede de apoio emocional diversificada e mais consistente consegue lidar melhor com perdas afetivas e com as adversidades da vida.

Pessoas sem amigos são sozinhas? Há varias razões para supor que assim é. Primeiro, parece plausível que uma pessoa que careça de amigos sofrerá problemas tanto sociais como psicológicos. A partir disso, é interessante perceber que há pessoas que carecem de amizades adequadas e se sentem sozinhas. Todavia, há também pessoas que não tem amigos e que não se sentem sós ou sofrem tanto. Essa última informação pode dar a ideia que não é importante ou necessário ter amigos. Mas na verdade, uma pessoa que não se sente só sem amigos é porque ou tem um problema de personalidade ou vive dependendo de outras pessoas. O Transtorno de Personalidade Esquizoide é caracterizado pela pessoa não necessitar dos outros e se sentir “bem” estando sozinha. Ou no segundo caso, porque essa pessoa investe suas trocas afetivas somente na família ou no seu relacionamento amoroso. Neste último caso é um risco porque quando a acontece algo com a família ou um problema amoroso a pessoa entra em grande sofrimento porque se vê perdendo toda a sua estrutura ou base de apoio. Em oposição a isso tudo, aquela pessoa que tem amigos tem mais resiliência e suporte para lidar com eventuais traumas pessoais. Tenho ainda observado que o sentimento de amizade é de qualidade boa e até na maioria das vezes é superior ao amor (relacionamento amoroso). Há uma lealdade, uma confiança, uma cumplicidade que é saudável. E não há tanta dependência comparada com o relacionamento amoroso. A amizade é um relacionamento leve.

Pense antes de prosseguir o texto: Quantos amigos você tem? Quantos são seus verdadeiros amigos? Qual a importância deles na sua vida? Você costuma passar momentos agradáveis com eles? A quais grupos sociais você participa? Qual a diversidade deles? Você valoriza ou prioriza muito mais as obrigações que o convívio com os amigos?

Há alguns dias atrás minha professora de Francês Lourdes Pataca (Lurdinha) indicou o filme “E se vivêssemos todos juntos?” (Et si on vivait tous ensemble?), de Stéphane Robelin, França-Alemanha, de 2011. O filme retrata parte da vida das pessoas mais velhas. O filme “Querido Companheiro”, “O exótico hotel Marigold”, de John Madden, “O Quarteto”, de Dustin Hoffman, “Um divã para dois”, de Davide Frankel, todos bem recentes, também são filmes sobre pessoas da terceira idade e seus problemas.

O filme “E se vivêssemos todos juntos?” é contado de forma bem humorada, sincera e sensível. Nele acontece a história de um grupo de melhores amigos de longa data (há mais de 40 anos) que se mantém fiéis na amizade (com exceção de algumas passagens) e um rapaz sedento por aprender sobre relacionamentos na terceira idade para um trabalho da universidade. O enredo envolve um fotógrafo solteirão aposentado que adora sair com jovens garotas de programa, outro que tem uma doença neurodegenerativa e por isso tem problemas de perda de memória recente, outro ainda que é um eterno comunista (perfil opositor) e que entra em diversas confusões políticas e de opiniões e uma mulher que esconde sua doença terminal. Todos tem uma personalidade particular e fascinante. Quando eles começam a ficar muito velhos o asilo surge como uma solução complicada para alguns deles e depois de algumas discussões decidem morar juntos. Na história, há dois casos extraconjugais entre os amigos que são descobertos e produz muito incômodo, problemas decorrentes de morar juntos, tabus da sexualidade na terceira idade e outros desdobramentos. A amizade se mantém apesar das intempéries da vida deles. Um dos pontos legais do filme é que há um respeito mútuo pelas diferenças. Em uma história em que cada personagem tem um problema particular todos se unem para se ajudar de alguma forma. O filme ainda conta com a atriz norteamericana Jane Fonda que atua brilhantemente. O belo elenco principal é formado por três franceses, duas norteamericanas e um germanoespanhol. É um filme muito bonito porque retrata o valor e a importância das verdadeiras amizades. Entrega, compromisso, parceria, tolerância e empatia são alguns dos ingredientes nítidos neste filme. Ingredientes muito raros nas relações dos dias atuais. O filme ensina também que a amizade não é exclusiva ou excludente. Todo mundo pode ter mais de um amigo.

É interessante pensar sobre a importância das comunidades sociais durante a história evolutiva e o quanto isso estimulou o desenvolvimento de um cérebro mais complexo. Segundo Robin Dunbar, que é antropólogo e psicólogo evolucionista, os contatos sociais colaboraram, na evolução, para que o cérebro desenvolvesse uma alta capacidade neuronal. Ele observou que nos macacos havia uma relação entre o tamanho do cérebro, quantidade de conexões e o número de integrantes do grupo que ele pertencia. Em outras palavras, quanto mais integrantes tivesse no grupo de uma espécie mais volumoso e conectado era o seu córtex. Daí surgiu a hipótese do cérebro social, segundo a qual o desenvolvimento das estruturas sociais teria impulsionado a evolução do cérebro. Isso quer dizer que quanto maior for o grupo que a pessoa interagir mais informações precisarão ser processadas e analisadas pelo cérebro para se adaptar à aquela comunidade. Esse processamento ativa mais as regiões associadas a discriminação social, a emoção, ao afeto…

No presente, o cultivo de boas amizades implica em qualidade de vida: menos estresse, ansiedade, depressão, problemas de saúde… Quanto maior a quantidade e qualidades de sua rede social de amigos, maior será a saúde física e emocional. Por conseguinte, maior será sua resiliência, maior será  a capacidade em lidar com o estresse, em se adaptar a situações adversas. Segundo algumas pesquisas da professora Bernardette Boden-Albala pacientes socialmente isolados tem quase o dobro de possibilidade de ter derrame em cinco anos quando comparados com pacientes que tem relações sociais mais intensas que envolvam trocas afetivas. Segundo dados de alguns pesquisadores de Harvard, uma amostra com 16.638 idosos americanos revelou que a perda de memória é considerável menor em pessoas socialmente ativas. Algumas pesquisas revelam também que pessoas que pertencem ao maior número de grupos no passado apresentam menores índices de depressão, mesmo sendo levados em conta outros fatores que poderiam influenciar a transição, incluindo incertezas sobre escolhas, disponibilidade de apoio social e dificuldades acadêmicas. Um estudo da Harvard School of Public Health descobriu que a amizade faz bem ao coração dos homens mais velhos. Aqueles com uma maior rede social tem no sangue quantidades consideravelmente menores de uma molécula chamada interleucina-6 do que os mais solitários. Altas taxas de interleucina-6 são fator de risco para doenças cardíacas.

A amizade é algo bastante interessante os amigos falam bobagens a noite toda, fazem piadas sem graça e acha que tudo foi o máximo de divertido. Aquela pessoa de fora, que não é amiga do grupo, já acha insuportável ouvir aquelas bobagens todas. Todo grupo cria suas próprias linguagens, afetos, gozações e loucuras  e isso produz afinidades e desenvolve cegueira de se autoobservar. É um dos motivos porque psicoterapeuta não pode atender amigos.

A amizade é mais saborosa porque a escolha não é por obrigação. O fato das pessoas poderem escolher os seus amigos, o que não acontece com os indivíduos da própria família, faz com que as relações sejam mais espontâneas e sem obrigação. Até mesmo porque as verdadeiras amizades acontecem de acordo com afinidades.

Em certos casos alguns amigos passarão mais tempo ao seu lado do que você passará com seus pais.  Alguns destes relacionamentos mais afetivos serão histórias que poderão até servir de roteiros para filmes. Neste caso estes velhos amigos serão marcas de boas e más lembranças, saudades e de qualidade de vida. Será só lembrar deles que o filme novamente passará.