Sobre o medo, ansiedade e suas consequências

Sobre além das questões básicas
setembro 27, 2006
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Sobre o medo, ansiedade e suas consequências

“Lá onde há o perigo, também cresce o que salva.”

Hölderlin
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Eu sei mas não devia (Marina Colassanti)

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas logo se acostumaa acender cedo a luz. E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. A gente se acostuma a acordar de manhãsobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduiche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro eouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra. A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias de água potável. Agente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se a praia está contaminada a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos,para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que gasta de tanto se acostumar, e se perde de si mesma.

Sobre o(a) autor(a):poesia publicada em seu livro de mesmo nome (Eu sei, mas não devia – Ed. Rocco – Rio de Janeiro – 1996). Com este livro Marina conquistou um prêmio Jabuti. ___________________________________________________________________

Das buscas e descobertas (Eduardo Canabrava Barreiros)

Foi temendo o isolamento que me integrei na multidão. Isolei-me ainda mais! Foi receando a miséria que amealhei. E me tornei miserável! Foi apavorado ante a morte que me defendi. E acabei matando! E pior: foi temendo o medo de ter medo que me tornei medroso.

Sobre o(a) autor(a): Renomado historiador e cartógrafo brasileiro.
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“Devemos caminhar na direção do nosso temor, ali está nossa única esperança.” – Herman Hesse
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“O medo e a subserviência pervertem a natureza humana” – Rabelais
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” o medo da desgraça é pior do que a desgraça”

Leib Lazarov
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