O “panelaço” e a sujeira de algumas panelas: fome de que?

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O “panelaço” e a sujeira de algumas panelas: fome de que?

Durante o pronunciamento de Dilma Rousseff, em rede nacional de rádio e TV, na noite deste domingo (8/03/2015), um “panelaço” ou “buzinaço” foi ouvido em algumas cidades brasileiras. Vale lembrar que o “panelaço” há muito foi incorporado a todo tipo de protesto e não está portanto associado à falta de comida. Quando pesquisei na internet e nas redes sociais constatei que os bairros que ocorreram essas manifestações eram de maioria das classes mais favorecidas de nossa sociedade.  Isso produziu pouco alcance e foi muito pequeno porque se restringiu a alguns poucos prédios em bairros nobres de algumas cidades. Algumas pessoas mais ácidas chegaram nas redes sociais a chamar de Paulistânia (denominação de bairros tipo Jardins e Higienópolis seja em São Paulo, seja em outras capitais que odeiam a Dilma  e que são esfomeados por Miami). Parece que o barulho foi proporcional ao valor do IPTU. Em comparação também, parece que o ruído mais intenso foi quando o jogador Danilo do Corinthians fez o gol; o segundo quando goleiro Cássio defendeu o pênalti contra o São Paulo.  Parece também que parte de nossa elite foi a primeira vez para a cozinha, procurando no escuro a democracia e encontrou algumas panelas Creuzet e as sujou. Provavelmente foi uma emoção tamanha pegar no cabo de uma panela pela primeira vez na vida.

Em relação ao discurso da presidenta achei o bastante pobre de conteúdo e não respondeu questões pertinentes que hoje estão no cenário político, ético, econômico e de direito dos trabalhadores.

A expressão de revolta é um direito de todo cidadão brasileiro. É um ato legítimo e democrático. Vale ressaltar que não gostar desse governo e protestar não significa ser a favor de golpe ou ser contra os pobres. Inclusive o político precisa aprender a lidar com isso. Precisa ser frio. Precisa aprender a lidar com elogios e com críticas. O problema não foi a reclamação, a crítica, o barulho e nem as vaias, mas o modo como foi realizado por parte de alguns cidadãos. O “panelaço gourmet” além do “Fora PT” foi acompanhado em alguns casos por xingamentos sexistas ou palavras chulas (vaca, vadia, burra, puta, sapatão, vagabunda…) direcionados à presidenta, sujeiras que não ofenderam apenas a governanta, mas todas as mulheres brasileiras. Trágico por se tratar de um dia que deveria servir para lutar contra o machismo e sexismo. Isso explica de modo eloquente o lugar da mulher na sociedade brasileira e diz muito sobre o nosso grau de politização. Não há também espanto disso tudo porque cada um dá o que tem de repertório ou habilidade de acordo com o seu nível intelectual. Não há como esperar argumentos de um grupo pouco acostumado a discutir de forma democrática ou inteligente. Apenas o fato da pessoa não ouvir o que está dizendo já mostra que não há espaço para a discussão. Há ainda um desrespeito com quem queria ouvir o pronunciamento da presidenta, seria muito mais coerente se ouvissem e deixassem outras pessoas ouvirem para em seguida fazer o tal “panelaço”. Pareceu-me que o barulho pode ser medido pelo mapa eleitoral da eleição de 2014. Seria parte desse pessoal que bateu na panela com a colher de pau enquanto a Dilma falava, o mesmo que foi contra a PEC das domésticas, o Bolsa-Esmola, o Mais Médicos, a Lei de Cotas etc. sancionadas pela mesma Dilma?

Vale lembrar que “panelaço” inventado pra derrubar o Allende resultou numa das ditaduras mais famigeradas da América Latina.

Em relação aquelas pessoas que passaram dos limites a questão não é educação, mas falta de repertório ou aprendizagem sobre ética, moral, História do Brasil, democracia e falta de espírito de grupo ou coletividade de parte dos membros deste “panelaço gourmet”. É interessante observar que parte dos que ontem bateram a panela e xingaram são os mesmos que silenciaram ante a crise de água em São Paulo (“caixadáguaço” não vi ainda esse manifesto), ao caos no Paraná, o cartel do metrô em São Paulo, a lista da Furnas, o helicóptero com 500 kg de cocaína, como disse tão bem o cineasta Pablo Villaça. A crítica não deve ser feita aquelas pessoas que bateram em suas panelas e que criticaram a presidenta por a acharem incompetente. Este texto quer criticar aquelas pessoas que que a xingaram com nomes infames e de baixo calão. O texto também quer mostrar que tais manifestações ocorreram em regiões ricas do país e por pessoas que não tem o mínimo de consideração pela maioria da população. Esse grupo de alienados políticos poderia criticar ações de uma pessoa, mas devia evitar ao máximo rotular uma pessoa principalmente com adjetivos machistas. Neste sentido, bater panela com ela cheia e sem argumentos que a embaseiem e sendo agressivo não é manifestação, mas ódio. É panela suja. Uma ação provavelmente orquestrada por camadas elitizadas com o objetivo de criar alvoroço, desestabilizar a presidenta, seu partido e dar o golpe. Lembrando que pedir o impeachment sem provas de má gestão somado a necessidade da volta da ditadura é celebrar o golpismo.  É uma apologia ao autoritarismo, totalitarismo, com a volta da ditadura. É fácil ver os vídeos nas redes sociais chamando para o “panelaço”. Tais clipes eletrônicos sofisticados nas redes revela a presença e o financiamento de partidos de oposição a essa mobilização.

Muitos nas redes disseram e até eu mesmo que as panelas estavam sujas pela falta de água em São Paulo e porque a empregada não estava mais na casa das madames. De fato isso não é verdade. Água não se falta em lugares mais abastados do Brasil, ou pelo menos falta menos do que em comparação as periferias. Fica aqui a dúvida. Parte dessas pessoas com suas panelas sujas não seriam os mesmos que consideram os sem-terra, sem teto, estudantes de esquerda ou sindicalistas como escória da sociedade?

Poderíamos dizer que dia 08 de março as 23:59 estava acabando e podíamos então começar de volta nosso machismo no dia seguinte. O pronunciamento da presidenta mostrou que nem foi dado tempo de terminar o dia. O mais incoerente disso tudo foi algumas dessas pessoas compartilharem mensagens homenageando as mulheres pela manhã e a tarde e a noite chamado a presidenta aos xingamentos apenas demonstrando a forma machista de depreciar uma pessoa apenas por ser mulher. Mulheres desses bairros que ganharam flores caras de seus maridos que pela manhã disseram que as mulheres mereciam respeito e desejaram um Feliz Dia Internacional da Mulher a todas as mulheres do mundo, logo mais, juntas gritaram palavrões à primeira mandatária do país, mulher, mãe e avó. O bom de tudo isso é saber que o Brasil é muito mais do que a classe média aburguesada de cinco ou seis capitais. Ele é plural porque tem sertanejo, pobre, índio, nordestino, homossexual, iletrado, favelado, negro, mulato, moreno, tem de tudo…. Ele é diferente, melhor e maior do que pode imaginar umas meras pessoas que batem em suas panelas cheias e sujas. Bairros que cozinham com as panelas Creuzet como está nas redes sociais.

Saber ainda que o Ministério Público está investigando e o Judiciário abrindo espaço para punir. As nossas instituições democráticas apesar de serem capengas estão funcionando. A impressão é que o outro lado não aceitou a derrota nas urnas e a mídia que também comunga desse fracasso dá suporte para o enfrentamento sujo. Se antigamente o “panelaço” significava a falta de comida e uma forma de gritar e exigir melhoria salarial para comer mais, ontem o “panelaço gourmet” ou a “revolta das varandas gourmet” apenas mostrou a luta de classes, a revolta dos que não aceitam políticas que colaboram com a população mais carente…

Mais uma vez a classe média sendo massa de manobra. A classe dominante (aquela 1% que tem mais de 50% da riqueza do país e dona da mídia) não tem ódio. A classe dominante tem perspicácia, esperteza e poder. O ódio ela terceiriza para pessoas nada politizadas e não se torna vidraça. O que não falta são Felicianos, Bolsonaros e outros radicais para defendê-la. O mais duro de tudo isso é que está sendo sancionada uma lei contra o feminicídio neste país machista e preconceituoso e este projeto ficou despercebido com toda essa manobra da direita.

O protesto seria inteligente se fosse a favor da reforma política, se criticasse medidas dos governos do PT (governo federal) e do PSDB (governos estaduais) e as articulações do PMDB, se propusesse soluções… Se eles queriam protestar pela situação dramática da Economia erraram quanto a forma. De resto foi apenas fome de si mesmo, foi apenas manipulação de determinados setores da sociedade. Infelizmente no dia seguinte da manifestação algumas “secretárias do lar” vão encontrar as panelas sujas e com certeza de que não terá ajuda para limpá-las e nem guardá-las.  O cenário é que o barulho parece que foi alto e de conteúdo inapropriado e a participação foi pequena. Deram assim argumentos que permitem o desvio de foco dos reais problemas que justificam os protestos. Pareceu que a fome dos que xingaram era apenas de si mesmos, não havia com certeza fome de justiça social como nunca houve neste ambientes pseudo democráticos onde o que importa são os próprios privilégios.