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O amor de quem delira

Estou lendo o livro “A menina quebrada” e no texto “A boneca inflável de cada um” a jornalista e escritora Eliane Brum comenta sobre o filme “A mulher ideal” (Lars and the real girl, 2007) o que me estimulou a assisti-lo. Apesar do título parecer qualquer bobagem descartável de hollywood e ser dirigido por um diretor estreante (Craig Gillespie) o roteiro do filme é maravilhoso e rico de delicadezas. Também recomendo ler o texto acima mencionado que também é muito enriquecedor.

Lars (Ryan Gosling) tem 27 anos. É um sujeito estranho que passou por problemas pessoais durante a vida e que foi se desgrudando da vida social. Ele é um homem tímido e vive recluso na garagem do terreno do seu irmão mais velho. Seu irmão e cunhada ficam preocupados com a sua solidão e tentam sempre aproximações que resultam em vão. Ele sai apenas para ir ao trabalho e a igreja. Nem mesmo aceita participar das refeições na casa do irmão. Sua vida excêntrica foi ficando cada vez mais angustiante e algo inesperado ocorre. Ele apresenta sua nova namorada: Bianca, uma boneca de silicone. Daquelas feitas sob encomenda para sexo. Ele apresenta para seu irmão e sua cunhada a boneca como uma mulher real. Segundo ele, uma missionária religiosa que a conheceu na internet. Meia, brasileira, meia dinamarquesa e que não fala inglês. Como não caminha precisa de cadeira de rodas. Ele acredita piamente que ela é um ser humano e a torna seu apoio emocional. Neste caso, provavelmente um repertório de comportamento de fuga/esquiva para lidar com a dura realidade de sua vida. De início isso causa muita estranheza na pequena cidade onde mora. Mas sob a orientação da médica e psicóloga da família o irmão e cunhada tentam entrar no mundo de Lars e pedir para que a comunidade da cidadezinha participe disso tudo para que ele aprenda a continuar com o tratamento.

Lembro em um dos estágios durante o curso de graduação em Psicologia que participei no hospital das clínicas da Universidade Federal de Uberlândia. Lá no setor de pessoas acometidas por transtornos mentais (principalmente esquizofrenia) e dependências químicas, recebia a orientação de uma querida professora psicanalista Maria Lúcia Castilho Romera para entrar no mundo do paciente. Ela descrevia pra gente: observe atentamente, escute mais atentamente ainda, participe de sua fala, demonstre empatia, aja como se vivesse naquele mundo. Foi uma aula marcante de como criar vínculo, como iniciar o tratamento. Preparação esta para a próxima etapa terapêutica que é agir nas profundidades psíquicas do paciente. As pessoas apenas abrem as portas de suas casas para os amigos e pessoas confiáveis. É assim que funciona no contexto afetivo e clínico. Esse ensinamento foi me tão útil que o uso com êxito com pessoas acometidas de delírios e alucinações a pessoas que precisam de orientação profissional. Na verdade, em qualquer relação que envolva necessidade de ajuda e resistência. O filme “A origem” (Inception, 2010) tem uma metáfora muito interessante sobre o profundeza do cérebro humano e das emoções. Os personagens principais entram no cérebro de uma pessoa durante seu sono para chegar no inconsciente dela. Se chegar lá podem inocular informações específicas. No início de uma sessão terapêutica tentamos criar um vínculo seguro antes de investigar ou intervir nas profundezas psíquicas do paciente se essa ordem não for respeitada ele pode não voltar para a próxima sessão ou pode evitar sempre de falar coisas importantes para não lidar com seus medos. Quando ocorre a relação terapêutica abre espaço para críticas construtivas, inocular informações saudáveis para o paciente amadurecer emocionalmente. É assim que funciona.

A ideia central do filme “A mulher ideal” é colocar a comunidade para fazer parte do mundo criado pelo Lars. De fato a beleza do filme não está só no personagem de Lars que é doce, mas na comunidade que o rodeia que é afetiva, que é extremamente humana. Que se relaciona, se envolve, tem paciência neste jogo para ajudar Lars. Uma sociedade com práticas culturais que privilegiam a defesa do grupo e o cuidado dos mais fracos: o amor agápico. O filme vai mostrando que de fato era preciso passar por este processo para que ele fosse se descobrindo e se autoconhecendo e se aproximando mais da realidade e das pessoas. Provavelmente não haveria outro caminho.

No filme há várias passagens muito delicadas e emocionantes. Uma delas quando a moça se insinua para Lars para sair com ele e um amigo de trabalho diz para ela ser menos agressiva. Outra quando uma mulher defende a fantasia de Lars dando vários exemplos das pessoas de sua comunidade que fazem o mesmo, mas não foram ridicularizadas por isso ou omitiram tais informações (o primo que colocava o vestido nos gatos, o sobrinho que dava todo o dinheiro para um clube de OVINs, a primeira esposa que era claptomaníaca). Há também o esforço hercúleo do irmão e da cunhada, em várias ocasiões, para estabelecer vínculo e ajudá-lo. A forma eficaz (sensível e racional) como a psicóloga conduz a sessão de terapia. Há até uma sessão de dessensibilização sistemática para ele aprender a receber toque físico. Um procedimento de aproximações sucessivas para habituá-lo a lidar com o  medo dele.

Vale ressaltar que a dificuldade de Lars de receber e dar o toque físico é muito comum entre pessoas que nasceram e viveram em ambientes hostis, com pouco ou nenhum contato físico e árido de afeto. Encostar nelas é interpretado como desrespeito, vergonha, medo e possibilidade de distanciamento.

Há também no filme uma ideia que é um soco na nossa sociedade atual. O diagnóstico radical (rótulo sintético) que implica primeiramente em não atuar de frente com as angústias do paciente e depois a medicalização com psicotrópicos que produzem os mais diversos efeitos colaterais. Tudo isso cria para a comunidade a ideia de que a pessoa é louca e esta sofre pelo estereótipo deste rótulo perigoso. Quantas pessoas antes da luta anti-manicomial que não eram violentas, mas que se perturbaram socialmente ainda mais por estarem no crivo da “anormalidade” ou ainda sofreram por tratamentos desumanos, ineficazes, somado a rejeição de amigos e familiares.

O filme também ensina que as pessoas podem investir em algumas ilusões e que passar por isso durante um período da vida é saudável. A vida, meu amigo, também é essa mistura de realidade e fantasia onde muitas vezes não há como discriminar uma da outra.

Vale pensar também quando alguém em maior ou menor grau se agarra em ilusões, fantasias ou determinadas crenças não seria melhor apenas escutar e dar atenção e tentar apenas entender as razões daqueles devaneios. Até mesmo porque não adianta eliminar uma fantasia se não tem nada para colocar no lugar, que por sinal, leva um bom tempo para ser ensinada.

 O filme não mostra somente os problemas de quem delira na lira das dores, mas as soluções de quem delira realmente de amor pelo outro. Não é uma comédia, mas um filme de amor genuíno.